| Cristina Balerini* Quantas línguas você fala? Essa é, invariavelmente, a pergunta que todo selecionador faz em uma entrevista de emprego. O domínio do inglês, e também do espanhol, já é exigido para praticamente todos os cargos. Em algumas empresas, há casos em que se pede outros idiomas, como alemão, francês e até japonês. Você certamente já passou por uma situação dessas – ou vai passar. Mas antes de sair em busca de um curso intensivo de idiomas para garantir uma vaga no mercado de trabalho, certifique-se de que você tem pleno domínio de um dos idiomas mais importantes – a sua língua, o português. O português é uma língua difícil, sim, mas não impossível de ser dominada. Uma simples carta de apresentação pode conter erros que minarão qualquer chance de conquistar a tão sonhada vaga. Acredite: o fraco domínio da língua é o principal fator de eliminação de candidatos, dizem os selecionadores. “Ninguém gosta de contratar um profissional que não fale ou escreva corretamente. O mercado está mais tolerante, mas dependendo da posição, erros são inaceitáveis – o profissional é um representante da empresa”, avalia a consultora e vice-presidente do Grupo Catho, Inês Perna. Segundo Inês, o mercado exige o domínio da língua inglesa. Por outro lado, o português é um idioma difícil, e bem ou mal as pessoas falam e escrevem. “Se elas gastarem muito tempo aperfeiçoando o português, podem não conseguir dominar um outro idioma. As pessoas não lêem como antigamente, e o domínio da gramática vem de estudo e leitura”, avalia. Embora apareçam mais freqüentemente entre os jovens, principalmente depois da chegada da Internet e da comunicação via e-mail, vícios de linguagem e erros gramaticais não são prioridade deles. Profissionais que ocupam cargos no alto escalão também costumam errar. O preenchimento de relatórios, por exemplo, é propício para todo tipo de erro. “Antigamente, quando cada diretor ou gerente contava com uma secretária, a falta de domínio da língua portuguesa não era tão levada em conta, afinal, quem precisava escrever corretamente era a secretária. Hoje isso mudou. Diretores, gerentes e supervisores dividem a mesma assistente, e começaram a colocar a mão na massa na hora de enviar relatórios, preparar documentos e enviar e-mails”, comenta Carla Zindel, diretora da escola de idiomas Holding’s. Cresce a procura pelos cursos de português Os deslizes com o idioma materno aparecem freqüentemente durante ligações telefônicas, reuniões formais com os clientes e entrevistas para um novo emprego. “O português é um idioma complexo, a norma culta é bastante diferente da língua normalmente falada e a falta de domínio do idioma pode comprometer a imagem profissional, colocando em dúvida a qualidade do trabalho”, diz Carla. Para ela, a imagem projetada pelos funcionários é a realidade corporativa percebida por clientes e concorrentes. “Nesse contexto, falar corretamente é imprescindível para o sucesso de uma organização, e os empregadores valorizam cada vez mais os funcionários que sabem se expressar com fluência”, complementa. E foi com base numa experiência própria, com um de seus clientes, que Carla decidiu criar o curso “Fluência em português”, no qual profissionais de todas as áreas podem aperfeiçoar o uso da língua materna. No curso, que tem a duração de oito horas, as falhas e vícios de linguagem são identificados por meio de dinâmicas de grupo e simulações de rotinas de trabalho. “As aulas são ministradas nos formatos de um workshop, pois trabalhando com situações reais do mundo corporativo o professor consegue eliminar as possíveis resistências dos alunos em relação às aulas em português”, explica Carla. Além das apostilas, músicas e vídeos com comerciais de TV e discursos de políticos também fazem parte do material didático utilizado no decorrer do curso. A idéia é reunir uma ampla gama de exemplos dos erros mais comuns cometidos pelos brasileiros ao utilizarem a língua portuguesa. "As aulas são personalizadas de acordo com a necessidade de cada grupo", conta Carla. Para profissionais que atuam no setor de atendimento ao consumidor, por exemplo, o foco é na expressão oral, priorizando o uso correto da língua portuguesa para conversação, ensinando o aluno a expor suas idéias de forma clara. “O principal objetivo das aulas é ensinar o aluno a organizar bem as idéias antes de falar ou escrever, porque só assim é possível se expressar de forma clara e concisa, de acordo com a exigência do mundo profissional”. Má comunicação Mais do que erros gramaticais, a má comunicação é um dos problemas mais comuns vivenciados pelos profissionais. Para o diretor do Instituto Canopus, Roberto Amado, o problema mais grave está na dificuldade de comunicação. A Canopus também realiza cursos de português com o intuito de capacitar os executivos a dominar, de maneira clara e objetiva, a arte da comunicação, apresentando os fundamentos básicos da redação, como objetividade e encadeamento das idéias. “Oferecemos um curso maior, mais genérico, com duração de 12 horas, que abrange redação empresarial, elaboração de projetos, propostas e relatórios. É um treinamento aprofundado da comunicação escrita”, diz Amado. O instrutor já vivenciou casos em que uma empresa fechou um pacote para seus funcionários porque eram muitos os problemas decorrentes da falta de comunicação adequada. Ao procurar pelo curso, o futuro aluno passa por um teste para detectar o nível de domínio e conhecimento do idioma, como ocorre nos cursos de línguas. Ao final do curso é aplicado novamente o teste para verificar o índice de aproveitamento e retenção do conteúdo apresentado. “A falta de objetividade em uma comunicação escrita é a principal dificuldade encontrada pelos alunos que nos procuram. Nossa língua é pouco objetiva, valoriza a forma redundante, prolixa. E a chegada do e-mail, que privilegia uma comunicação mais rápida, está levando os profissionais a encontrarem dificuldades ainda mais fortes na hora de se comunicarem”. Segundo Carla, da Holding’s, é na hora de redigir os textos – desde um formulário técnico a um e-mail -, que os empresários percebem que o português está fazendo falta. “Existe muita dificuldade na sintetização das informações. Na comunicação escrita é mais difícil perceber que se está falando errado. É na hora de falar que surgem as dúvidas, que podem comprometer seriamente o profissional em uma entrevista de emprego”. Carla comenta, ainda, que é nesse momento que as chances de impressionar o selecionador correm riscos mais sérios. “A insegurança por não saber se está falando corretamente, empregando os verbos no tempo certo e respeitando concordâncias, transparece no rosto da pessoa. Geralmente isso ocorre porque a pessoa, de tanto querer rebuscar seu português, comete ainda mais erros. E aí, essa insegurança é vista pelo selecionador como falta de capacidade”. Erros comuns, que à primeira vista podem parecer banais, como “fazem dez anos”, em vez de “faz dez anos”, podem comprometer a credibilidade do profissional e da empresa. “Por isso, o redator de documentos empresariais deve ler boa literatura, revistas especializadas e textos variados a fim de aprimorar a produção escrita”, opina a professora de português Laurinda Grion, autora do livro “400 erros que os executivos cometem ao falar e redigir" (Editora Edicta). Em seus cursos, Laurinda aborda tópicos como uso dos porquês, concordância, pontuação, verbos, colocação pronominal, crase, plural de substantivos e adjetivos, regência, recursos de estilo, ambigüidade, textos empresariais, entre outros itens. E Laurinda dá algumas sugestões: | |